segunda-feira, 28 de abril de 2008

Sentidos III

Cheiro-te, sofregamente, a enterrar o nariz no teu pescoço, nesta dualidade interminável em que me encontro. O teu pescoço serve de escape, de fuga, de porto de abrigo das tormentas que me queimam a alma. Porto fugaz. Num instante inspiro o teu cheiro e deixo-o invadir-me, fecho os olhos, sinto a tua pele com a ponta do nariz e perco-me de novo. Já não é seguro o teu pescoço, o teu peito, nada é seguro.
A Terra treme contigo perto, o céu rebenta numa tremenda tempestade, que só não me assusta mais porque parte de dentro de mim, os rios transbordam, as florestas incendeiam-se e eu ardo e fujo e corro. Corro em círculos. Fujo de ti enquanto corro para os teus braços. E luto... Luto contra ti, mas sabes que não é contigo. Ambos sabemos que na verdade é comigo que luto, é comigo que me debato, é só a mim que tenho que vencer.
E depois acho que consigo, mando-te embora, afasto-me do teu cheiro. Consegui, penso vitoriosa, para num instante sentir uma perda intensa. Foste embora e de ti só resta o teu cheiro na minha roupa... a desvanecer-se, lentamente.

sábado, 26 de abril de 2008

Gavetas II

Arrumei-as de novo. Penosamente, a custo. Desta vez deitei coisas fora, estavam mesmo demasiado cheias. Outras dobrei, comprimi e amachuquei, porque não as quero deitar fora. Agora estão arrumadas, mesmo que não seja bonito o que está lá dentro. Aproveitei para as fechar à chave e deitar a chave fora. Para as voltar a abrir terei de arrombá-las e ficarão marcas.
Agora estou a olhar para elas e a pensar até que ponto me fará falta o que deitei fora e até que ponto conseguirei viver com o que amachuquei. Bom, o essencial está lá dentro, a salvo. Deitei fora partes de mim, conceitos de impossibilidade e peças que não encaixavam. E agora vou abrir a janela e deixar o sol lavar-me a alma, aproveitar o Verão, porque o Inverno não tarda e tem laivos de eternidade.

sexta-feira, 25 de abril de 2008

Sentidos II

Vejo-te a olhar para mim, com os olhos semicerrados, sorridentes. Sinto-me bem assim, pertinho de ti. Os teus olhos falam tanto... Basta olhar para eles para saber o que pensas, o que sentes, como estás.
Lembro-me de ao principio ter dificuldade de te olhar nos olhos, como se tivesse medo de me perder neles. Agora procuro-os avidamente sempre que estamos juntos, como se neles estivessem as respostas todas. Não estão todas, mas estão algumas e perco-me na mesma.
Olho-te nos olhos e luto contra mim, contra as vontades, contra o desejo que cresce e nos envolve e me empurra para a frente até que desvio o olhar e enterro a cara no teu ombro, incapaz de continuar a lutar. Descanso por um momento assim, de olhos fechados, sem te ver, só a sentir-te, enquanto ganho forças para mergulhar os meus olhos nos teus e pairar sobre o abismo, só mais um bocadinho...

Teclados

Leio-te, tanta coisa que me apetece dizer-te e a pirmeira imagem que me vem à cabeça, é que apesar de os meus dedos poderem andar a dedilhar outro teclado, se calhar não o dedilham como dedilhariam o teu, e vem-me à cabeça como me apeteceu dedilhar-te ontem antes do bora lá pensar....e como me sabe bem estar ctg...e como tão fácilmente me fundo em ti egosto que te fundas em mim...o resto, é o avanço da minha vida, baseado em todos os pressupostos de que já falámos sobre aquela figura improvável, e no entanto tão presente que é o nós.
Somos o que somos, temos o que temos, que é tão bom, e que vamos absorvendo sofregamente, conforme podemos. Sim...é verdade...ando a dedilhar outro teclado, e ando a tentar fazê-lo da forma mais honesta possível, a tentar ter o melhor de dois mundos, criando uma subdivisão entre aquele eu, e este que não me apetece deixar e que te adora e te dedilha quanto pode, naquele limbo que existe só para nós.

Sentidos I

Oiço-te a teclar, como sempre, como faço há meses. Quietinha, em silêncio, sem querer interromper-te a concentração, pressionar-te com perguntas, roubar a tua atenção. Oiço-te, atenta ao ritmo com que pressionas as teclas, agora mais leve e saltitante, sem hesitações e sem suspiros, com a respiração suave.
Lembro-me de como te ouvia antes, a respiração intercortada, os suspiros profundos, a pressão súbita e a hesitação enquanto procuravas as palavras que te pesavam no espírito. Tão diferente de agora.
De repente, o tique-taque das teclas é interrompido por um riso baixinho, doce. Gosto tanto de te ouvir rir, penso, enquanto o coração se me aperta do riso não ser para mim. Luto comigo própria para não te perguntar o que dizes e o que pensas. Consome-me um profundo sentimento de posse, quero ser dona dos teus risos, dos teus suspiros, dos teus pensamentos, da tua pele, dos teus lábios, do teu corpo.
Estremeço com a intensidade do sentimento que se esvai com a mesma rapidez com que me assola. Racionalizo, sei que ninguém é de ninguém, que os seres humanos não são coisas que se possam ter, mesmo em relações simples. As pessoas dão-se mas não se tem. Penso em tudo o que me dás e sinto-me grata. Maravilho-me outra vez com a improbabilidade que é tu existires.
Oiço os teus dedos alegres, suaves, a responderem à afirmação que te arrancou o riso e imagino-me um teclado gigantesco, a ser percorrido pelos teus dedos, enquanto te ris baixinho. Estremeço de novo e tenho vontade de desligar a chamada. De repente sinto-me voyeur a espreitar pela janela a tua nova vida. Depois lembro-me das noites de janela fechada, da solidão, da certeza de que outro alguém é teclado debaixo das tuas mãos.
Fico quieta, atenta, à espera que os teus pensamentos naveguem na minha direcção e que da janela aberta volte a jorrar o Sol que ilumina os meus dias.

terça-feira, 22 de abril de 2008

Noite II

Anoiteceu depressa. Demasiado depressa. Não sei para onde foi o tempo, mas como sempre voa quando estou contigo. Tenho a cabeça em loop...vou ter saudades.

Tarde

Estou contigo e estou bem. É tão fácil estar contigo, quase como respirar. Fico a pensar se me irá faltar o ar se não estiver. Decido não cortar nada, num impulso como faço tudo, quanto mais não seja porque não sou capaz de te magoar. Agora fica assim... mais umas horas... mais uns dias. Depois vê-se. Agora quero sentir o sorriso na tua voz e imaginá-lo nos teus olhos. Quero estar simplesmente, sem pensar, aqui, quietinha, a ouvir-te.

Almoço

Leio e releio as tuas palavras. Assusta-me o cortar de repente...Não quero.
Tu não te interpões entre mim e a minha felicidade. Aliás és tão parte da minha felicidade como eu sou parte da tua... Há coisas que não têm explicação, são e pronto. Desarrumam gavetas, afagam-nos os cabelos, arrepiam-nos a pele... fazer o quê?
As coisas seguirão o seu caminho, e neste momento aquilo que disse é o que consigo dizer.
As empatias, as paixões, os amores, acontecem quando e como têm que acontecer, não se escolhem, não se mandam, não se procuram....acontecem e pronto...e fugires, cortar, é fuga para a frente que não me parece tenha grande resultado prático a não ser uma enorme sensação de vazio.
Não te adorarei menos se fugires... ficarei com aquela enorme sensação de vazio, de me faltar parte de mim, que és.

Manhã

Telefono a acordar-te, mas não tens voz de sono. Já estava à espera. Racionalmente estou feliz por ti. Repito-o na minha cabeça e sei que é verdade. Mas depois há um vazio enorme que sobe por mim acima e me amarra um nó na garganta. Não entendo esta falta de controlo. Não percebo porque é que algo que eu pressionei e forcei e desejei me está a afectar tanto.
Tenho uns ciúmes doidos, não de não ter sido eu a tocar-te, nem de não ter sido eu a dormir aninhada em ti. Tenho ciumes de não ter sido eu a ouvir a tua voz ensonada ao acordares.
Sinto uma vontade irracional de fazer exercícios de Matemática, como se apenas a lógica me pudesse salvar.
Preocupa-me a utilização que fizeste das palavras quando te perguntei se estavas feliz. Respondeste que estavas muito bem disposto. A semana passada, quando te dizia que te queria ver feliz tu respondias-me que andavas feliz. Fico a pensar se é o medo disto tudo me magoar que se interpõe entre ti e a felicidade. Leio e releio o que escreveste ontem e, pela primeira vez, pondero a hipótese de cortar de repente, o que ainda ontem me horrorizava. Não quero, nem posso, estar entre ti e a felicidade. És demasiado importante para mim.

segunda-feira, 21 de abril de 2008

Quintas feiras

Resoluções, são aparentemente boas ideias, mas há coisas que não se devem cortar de repente... não há porque... há lugar para mais que uma pessoa no coração de cada um, uns pode ser que o ganhem a pouco e pouco, outros aterraram lá, colaram, ganharam lugar cativo, e são uma boa parte do calor que nos conforta e nos faz seguir em frente, mesmo quando querem ser ultrapassados.

Razão de ser

Razão de ser, é alguem olhar-nos nos olhos e sentirmo-nos desejados, sentirmos que somos importantes, é estremecer ao toque e ao deslizar da palma da mão pela pele. É sermos capazes de dizer não quando queremos dizer sim e ficarmos felizes por isso.

Primavera

Hoje parei o carro ao fim da tarde e olhei-me no espelho retrovisor. Olhos inchados, nariz vermelho e pingão da alergia. E estava linda. You make it so.

Paz

Há dias em que sai quase tudo para fora. Sai a parte melhor, sai a que tem que sair, com travões e reticências, avanços e recuos. Há dias em que as coisas não correm como se esperavam que corressem, e é tão bom que assim seja. E é tão bom sentir-te sorrir, e aninhar, e deixar estar, e não fugir. Os equilibrios, as justificações e as razões, essas estão sempre lá, continuam de pedra e cal, têem que lá estar, e nós, aproveitar o que é bom, até onde pudermos ir. E sim é tão bom termos o melhor das pessoas, e tão egoista querer te-lo para nós. Mas é bom. Agora também te quero proteger, de mim, de ti, das coisas que não podem ser, nesta dualidade de te querer ter em meus braços, e sendo a peste que te desarruma as gavetas, quando as devia deixar fechadas. E que mal tem se o sonho de vez em quando for mais palpável, mesmo que inatingivel?
Sinto-te bem e em paz apesar de tudo, e sinto-me em paz também, e vou dar um passo em frente, sabendo que apesar de estar a construir muros, não vou deixar de te ter tambem.

terça-feira, 15 de abril de 2008

Voltas

Há blogs que têm um determinado tempo de vida e depois morrem, disseste tu. É verdade sim, eu sei. Mas acabo por voltar sempre aqui. Porque há coisas que não consigo dizer ou que não posso dizer. Porque há dias que são demasiado longos. Porque às vezes não dá para telefonar. Porque sim.

As gavetas continuam fechadas e arrumadas, mas a disposição das coisas altera-se a cada dia. E há dias em que parecem demasiado cheias e há dias em que parece que não cabe lá tudo. Não interessa. É melhor não pensar. Apetece-me relva e palmeiras e dias de Sol.

sábado, 5 de abril de 2008

Gavetas

Hoje cheguei a casa e desarrumei as gavetas que estavam fechadas. Depois voltei a arrumá-las. Agora já as fechei outra vez, mas com a certeza do que lá tenho dentro.