segunda-feira, 28 de abril de 2008

Sentidos III

Cheiro-te, sofregamente, a enterrar o nariz no teu pescoço, nesta dualidade interminável em que me encontro. O teu pescoço serve de escape, de fuga, de porto de abrigo das tormentas que me queimam a alma. Porto fugaz. Num instante inspiro o teu cheiro e deixo-o invadir-me, fecho os olhos, sinto a tua pele com a ponta do nariz e perco-me de novo. Já não é seguro o teu pescoço, o teu peito, nada é seguro.
A Terra treme contigo perto, o céu rebenta numa tremenda tempestade, que só não me assusta mais porque parte de dentro de mim, os rios transbordam, as florestas incendeiam-se e eu ardo e fujo e corro. Corro em círculos. Fujo de ti enquanto corro para os teus braços. E luto... Luto contra ti, mas sabes que não é contigo. Ambos sabemos que na verdade é comigo que luto, é comigo que me debato, é só a mim que tenho que vencer.
E depois acho que consigo, mando-te embora, afasto-me do teu cheiro. Consegui, penso vitoriosa, para num instante sentir uma perda intensa. Foste embora e de ti só resta o teu cheiro na minha roupa... a desvanecer-se, lentamente.

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