sexta-feira, 25 de abril de 2008

Sentidos I

Oiço-te a teclar, como sempre, como faço há meses. Quietinha, em silêncio, sem querer interromper-te a concentração, pressionar-te com perguntas, roubar a tua atenção. Oiço-te, atenta ao ritmo com que pressionas as teclas, agora mais leve e saltitante, sem hesitações e sem suspiros, com a respiração suave.
Lembro-me de como te ouvia antes, a respiração intercortada, os suspiros profundos, a pressão súbita e a hesitação enquanto procuravas as palavras que te pesavam no espírito. Tão diferente de agora.
De repente, o tique-taque das teclas é interrompido por um riso baixinho, doce. Gosto tanto de te ouvir rir, penso, enquanto o coração se me aperta do riso não ser para mim. Luto comigo própria para não te perguntar o que dizes e o que pensas. Consome-me um profundo sentimento de posse, quero ser dona dos teus risos, dos teus suspiros, dos teus pensamentos, da tua pele, dos teus lábios, do teu corpo.
Estremeço com a intensidade do sentimento que se esvai com a mesma rapidez com que me assola. Racionalizo, sei que ninguém é de ninguém, que os seres humanos não são coisas que se possam ter, mesmo em relações simples. As pessoas dão-se mas não se tem. Penso em tudo o que me dás e sinto-me grata. Maravilho-me outra vez com a improbabilidade que é tu existires.
Oiço os teus dedos alegres, suaves, a responderem à afirmação que te arrancou o riso e imagino-me um teclado gigantesco, a ser percorrido pelos teus dedos, enquanto te ris baixinho. Estremeço de novo e tenho vontade de desligar a chamada. De repente sinto-me voyeur a espreitar pela janela a tua nova vida. Depois lembro-me das noites de janela fechada, da solidão, da certeza de que outro alguém é teclado debaixo das tuas mãos.
Fico quieta, atenta, à espera que os teus pensamentos naveguem na minha direcção e que da janela aberta volte a jorrar o Sol que ilumina os meus dias.

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